20140107
20131107
20130729
tarnhelm
retorcida, nojenta, corcunda e horrível, a luxúria de Alberich é rejeitada pelas ninfas do Reno. incapaz de aceitar o seu destino, vinga-se da beleza, rouba-lhe o seu ouro. ao renunciar à capacidade de amar, o nibelungo ganha o poder de forjar o artefacto de poder, através da intriga, das suas mentiras, da sua mente retorcida. os incautos serão ludibriados quando a débil forma se reveste de ilusão com o Tarnhelm... oh pobres tolos. contudo, nenhuma ilusão dura o tempo suficiente para se tornar realidade. então, incapaz de controlar ou compreender o poder do anel, o retorcido, asqueroso e débil anão, Alberich amaldiçoa todos os que o venham a possuir após ele. o veneno das suas conspirações não trará nada a não ser dor, e a morte do amor entre heróis.
passarão mil séculos em que Siegfried nos inspirará valor e passarão mil séculos em que o nojento, retorcido e marreco, anão Alberich inspirará, aos que conseguem ver além do Tarnhelm, nada mais que o asco de um sapo sob os pés de Wotan.
20130404
20130316
«days went by when you and I bathed in eternal summers glow»
nunca tinha entendido a Ilíada para lá do seu estoicismo e
assim os personagens sempre me haviam parecido unidimensionais – mas agora
percebo como a minha dor é a daqueles que lutam em Tróia, dominados pelas
forças trágicas do destino e a impulsividade de amar.
mesmo com o poder de Aquiles, o humano sucumbe diante da
descoberta de um olhar que o desarma e, refém da irascibilidade, piora o que
pretende corrigir afinal o seu amor é grande, mesmo por alguém que no início
via como subserviente ou que se lhe entregava despojada «São os Atreus, entre os mortais, os únicos que
amam suas mulheres? Acho que não. Qualquer sujeito sadio e decente ama a sua e
cuida dela, como em meu coração amei Briseis, embora a tenha conquistado pela
lança».
o nobre Heitor é o retrato da vitimizada bondade, não é o
eros que o prejudica sendo ele fiel e honrado com a sua esposa, mas é
tragicamente absorvido pela fúria de Aquiles, também movida pela perda de
Patróclo, quem tanto amava.
a quantas insuficiências nos expõe Homero diante dos
pilares das forças em colisão, temos a fúria sem poder de Aquiles que acaba por
derrubar os princípios virtuosos e o desejo de bem de Heitor, quão pequenos somos
diante de ambos e quão maior tornam a nossa humilhação.
essa é a contingência que torna o humano reflexo da
causa central da obra. a fraqueza de Páris, uma sombra do irmão, que desperdiça
o tempo e a juventude atrás da ilusão da beleza física apenas para diante do
amor de Helena descobrir-se incapaz de proceder correctamente, sem conseguir
olhar à ruína e ao mundo que arde em seu redor – quantos sofrerão e morrerão,
quanto mal surgirá – tal é o amor que destrói a racionalidade e torna dele
escrava a consciência e chama a si a desonra e o despojo da coragem.
a maldição e a dor de Tróia é, ainda assim, a beleza
avassaladora da própria vida, de que a imortalidade não reside nos feitos e
virtudes do indivíduo, mas na força com que ama.
20130303
20130215
20130111
20121209
O Fortuna velut luna statu variabilis,
semper crescis aut decrescis;
vita detestabilis nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem,
egestatem, potestatem dissolvit ut glaciem.
Sors immanis et inanis,
rota tu volubilis, status malus,
vana salus semper dissolubilis,
obumbrata et velata mihi quoque niteris;
nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris.
Sors salutis et virtutis mihi nunc contraria,
est affectus et defectus semper in angaria.
Hac in hora sine mora corde pulsum tangite;
quod per sortem sternit fortem, mecum omnes plangite!
semper crescis aut decrescis;
vita detestabilis nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem,
egestatem, potestatem dissolvit ut glaciem.
Sors immanis et inanis,
rota tu volubilis, status malus,
vana salus semper dissolubilis,
obumbrata et velata mihi quoque niteris;
nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris.
Sors salutis et virtutis mihi nunc contraria,
est affectus et defectus semper in angaria.
Hac in hora sine mora corde pulsum tangite;
quod per sortem sternit fortem, mecum omnes plangite!
20121125
star of wonder [advento]
We three kings are coming again
Bearing gifts from the East
From the East
Some say a star will rise again
In the hearts of humankind
Some say we have been in exile
What we need is solar fire
Star of wonder, star of night
Star of royal beauty
Westward leading, still proceeding
A star
A star of wonder
We bring gold and myrrh for him
From the East, frankincense
From the East
Some say a star will rise again
In the hearts of humankind
Some say we have been in exile
What we need is solar fire
Star of wonder, star of night
Star of royal beauty
Westward leading, still proceeding
A star
Star of wonder, star of night
Star of royal beauty
Westward leading, still proceeding
A star
A star of wonder
Of wonder.
Bearing gifts from the East
From the East
Some say a star will rise again
In the hearts of humankind
Some say we have been in exile
What we need is solar fire
Star of wonder, star of night
Star of royal beauty
Westward leading, still proceeding
A star
A star of wonder
We bring gold and myrrh for him
From the East, frankincense
From the East
Some say a star will rise again
In the hearts of humankind
Some say we have been in exile
What we need is solar fire
Star of wonder, star of night
Star of royal beauty
Westward leading, still proceeding
A star
Star of wonder, star of night
Star of royal beauty
Westward leading, still proceeding
A star
A star of wonder
Of wonder.
20121030
Om - Advaitic Songs
Drag City
.2012
.2012
01 - Addis
02 - State of Non-Return
03 - Gethsemane
04 - Sinai
05 - Haqq Al-Yaqin
Se o álbum “God Is Good” começou
a mostrar uma coesão musical muito mais forte e uma direcção estética com
estruturas mais objectivas, em detrimento de uma excentricidade experimental –
muito devido à entrada de Emil Amos,
vindo dos Grails para a bateria dos Om –, esse processo só ficou plenificado
agora no segundo álbum que Amos faz
com a banda.
Aqui Al Cisneros parece surgir muito mais entrosado com a
espiritualidade rítmica do antigo baterista dos Grails em vez de ter as suas composições coladas à nostalgia do
trabalho com o seu antigo parceiro dos Sleep,
Chris Hakius. Se este era também um
excelente baterista, a verdade é que Amos
parece mais contextualizado, pela sua própria herança musical, dentro dos
mantras de repetição dos Om. Pois se
Hakius sempre foi um portento de
solidez rítmica, essa derivava para a ortodoxia do doom, enquanto Amos
consegue manter as progressões de repetição com uma maior dinâmica e com
crescendos de elementos percussivos.
Não deixa de ser lamentável que
muitos ouvintes de música acabem por deixar passar a oportunidade de ouvir este
álbum dos Om, como sucede com tantos
outros na mesma latitude, pelo preconceito em relação a termos como doom, sludge, stoner ou metal. Quando na verdade, o local onde
mais tem sido venerado o culto psicadélico e experimental dos anos dourados do rock, os anos 70, é precisamente a
partir dos géneros supra citados. E aqui muito do mérito é do pilar central da
banda, o baixo de Cisneros – que é
como um mandala sonoro a congregar a hermenêutica musical da banda.
Outro factor de solidez a
conquistar excentricidade é o maior envolvimento de Aubrey Lowe no desenvolvimento sonoro do álbum – os apontamentos
com instrumentos como o violoncelo, a tambura e o preenchimento harmónico da
sintetização é muito mais direcionado e muito mais presente nas estruturas
musicais. A banda poderá ter demorado 4 álbuns a consolidar-se musicalmente, mas essa espera valeu cada um dos trabalhos anteriores, agora congregados em "Advaitic Songs". No final este é um disco tão acessível quanto impenetrável.
Guerra do Anel, Genesis e sereias...
cada pessoa deve assumir um compromisso democrático, o trabalho que supõe, e assumir a sua voz política. e não digo política nessa perspectiva partidária, mas no sentido original da palavra, derivado do termo grego para cidade. ou seja, ter voz entre os iguais. essa é a base duma existência comum entre todos. digo que é trabalhoso precisamente porque, para haver voz entre iguais, há a necessidade de igualdade. portanto, a pessoa não pode ser displicente no investimento em si própria, deve procurar seriamente ter uma educação sólida e pilares éticos e morais inabaláveis.
só partindo dessas bases de desenvolvimento conseguirá o mais importante – respeitar o próximo, o outro que o ouve e que também lhe irá falar, que poderá ou não concordar consigo. é essa a importância de expressar publicamente as nossas ideias, é algo que permite que nos revelemos entre iguais e que esses outros se revelem a nós. numa sociedade dissimulada não haveria qualquer comunidade, não haveria uma realidade política interligada, a própria democracia seria um conceito vazio, pois os interesses que defende seriam desajustados a cada um. a raíz dos males sociais estará nessa dissimulação, da menos à mais grave, pois agindo politicamente invisível o indivíduo pode prejudicar aqueles que o rodeiam em seu benefício próprio [o Anel, que o professor Tolkien criou, representa isso perfeitamente].
obviamente que isso não permite à sociedade funcionar dum modo saudável. se pensarmos nisto como uma esfera, numa democracia é necessário que os mecanismos políticos funcionem do centro até à periferia, cada indivíduo cuidará da sua casa e dar-se-á a conhecer à cidade (polis) através das suas ideias, aí entrarão em diálogo e surgirão conceitos de sociedade e comunidade donde surgirão necessidades e reivindicações que podem então ser apresentadas e resolvidas numa escala maior. se cada um pensar e preocupar-se exclusivamente consigo será apenas um pequeno passo até ao falhanço político, a anarquia. uma espécie de darwinismo social, onde cada um é por si e o mais forte prevalece.
por ser uma realidade, a corrupção político-partidária cria os dois focos de guerra. mas se Mordor não pode possuir o Anel para o usar na batalha, então os decadentes e auto-proclamados paladinos da ordem social, leia-se PC/BE... perdão, Gondor... também não.
parece claro que Tolkien deixava intuído que a fonte da corrupção é civilizacional, afinal é nas forjas de fogo e de ferro que o Anel é fabricado. o professor optou pela visão de uma vida campestre, simples e idílica, a triunfar sobre as crescentes desenvolturas do "progresso". o ser humano é mais pleno dando-se satisfeito pelos prazeres simples da vida: família, amizade, boa cerveja e boa erva. conceitos que tragicamente menosprezamos.
no final não somos apenas adamah. através de hawwah sucumbimos à ambição... em cada sereia há mil tentáculos ocultos.
20120916
20120726
20120608
20120518
lógion LXIII
Jesus disse, «havia um homem rico que tinha uma grande fortuna. disse
ele: "empregarei a minha fortuna a semear, a ceifar, a plantar, a encher
os meus celeiros de cereais, para que nada me falte". isto pensava ele
no seu íntimo, e nessa mesma noite morreu. quem tiver ouvidos oiça!»
20120206
a dor não cantada
quão tamanha é a dor não cantada. e imensos os mitos não escritos. porque o ser humano é habitado por dores sem eco, por heróis não aclamados aos quais o único prémio é a sua dor não imortalizada.
porque há dores maiores que aquelas cantadas por Homero, que se sustém a si mesmas, sem o sentido épico das forças do destino. sozinhas, habitam os heróis não cantados com a majestade do silêncio. ninguém dirá dos que sofrem assim «vede, eles serão senhores...» - o herói anónimo permanece abandonado pelos poetas, com a crueldade da mortalidade que não será imortalizada.
não será feita cinematografia, nem dramaturgos darão cor à dor não conhecida. e sem a benção dos bardos quantos não saberão escrever, cantar, imortalizar o seu abismo, o quanto sacrificaram e o quanto amam. sem saber ilustrar o quanto fizeram, o quanto quiseram, serão esquecidos pela força do tempo. esses heróis são os que mais sofrem, a sua dor é a dor do mundo, o que sabemos do humano e será atribuída à mitologia sem rosto, ao tipo, aos filósofos.
quão tamanha é a dor não cantada. tê-la e à impotência de a exprimir. a insuficiência de ser. o herói anónimo, sem ser cantado, dirá «não sou nada». nem à vingança de Virgílio lhe é dado o direito, nem será acusado como David pelo pecado com Betsabé.
restará apenas a justeza ou maldade no próprio âmago, com a voz única do autor incapaz como penitência. e com a dor do silêncio, sem epopeias que sejam amadas, louvadas, estudadas e estimadas. a sua dor não será aliviada pela apropriação de outros que sofram dela façam. o peso será sempre só seu para suportar.
e carregam o mundo sem serem chamados Atlas, sem a honra do seu caos ser designado, vergados pelo peso da vergonha anónima.
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